O alto padrão brasileiro tem se movimentado em uma direção clara nos últimos anos: menos padronização, mais personalização. E não se trata apenas da escolha de acabamentos, que virou lugar-comum em qualquer empreendimento premium, mas de algo mais profundo. Cada vez mais, incorporadoras entregam ao comprador uma laje aberta e a possibilidade de projetar o próprio apartamento do zero, definindo planta, materiais e até a lógica de circulação da casa. É o que o mercado internacional chama de tailor made.
Uma tendência que veio da alta costura
A expressão nasceu na alfaiataria e migrou para o consumo de luxo. Foi apropriada pelas grifes de moda, pela indústria automobilística e, mais recentemente, pelo mercado imobiliário. A lógica é a mesma: o produto se ajusta ao cliente, não o contrário. Uma pesquisa da consultoria Deloitte sobre o comportamento do consumidor de imóveis apontou a personalização como uma das características que mais devem se valorizar no processo de compra e venda até 2040, ao lado da tecnologia e da sustentabilidade.
No imobiliário, o conceito começa a se firmar em três modalidades. A primeira é a personalização de acabamentos, mais comum, em que o comprador escolhe pisos, revestimentos e louças a partir de um catálogo da construtora. A segunda é a personalização parcial de layout, com integrações e ajustes técnicos limitados. E a terceira, mais recente e sofisticada, é a personalização total, em que o proprietário recebe uma laje livre e desenha o próprio apartamento, com apoio da equipe da construtora e do arquiteto de sua escolha.
O que muda quando a personalização é de verdade
A personalização total exige mais do que um catálogo ampliado de acabamentos. Envolve uma engenharia pensada desde o início para permitir a liberdade do morador. Isso significa lajes sem vigas internas, com estrutura de sustentação concentrada apenas nas periferias do apartamento, o que abre o espaço para qualquer distribuição imaginada. Envolve também uma equipe técnica capaz de acompanhar o comprador em cada decisão, conjugando as escolhas com as normas do edifício e evitando descompassos entre unidades.
É esse arranjo que separa a customização real da customização de vitrine. Uma coisa é escolher entre três kits de acabamentos. Outra, muito diferente, é receber uma laje em branco e definir onde ficará cada cômodo do próprio lar.
Como o conceito ganha corpo no mercado brasileiro
O modelo se espalha entre incorporadoras de alto padrão em diferentes regiões do país. Em Curitiba, ele ganhou nome próprio no mercado local com o selo Tailor Made San Remo, criado pela Construtora San Remo, com 45 anos de atuação no luxo residencial da capital paranaense. O selo entrega ao comprador uma laje aberta e permite desenhar toda a planta do apartamento, com um memorial descritivo que inclui mármores italianos, metais alemães e louças americanas, sem custo adicional. Empreendimentos como o Queen Victoria, no Ecoville, e o Grand Palais e o Chateau Carmelo, no Batel, trabalham dentro dessa lógica.
Um cuidado técnico que costuma passar despercebido
Apesar de todos os benefícios, a personalização total exige rigor construtivo e jurídico. Especialistas alertam que customizações que extrapolam o padrão previsto no memorial podem gerar precedentes e desequilíbrios entre adquirentes, com risco de disputas judiciais. Por isso, as construtoras que trabalham o conceito investem em equipes técnicas próprias, contratos detalhados e um limite claro entre o que pode ou não ser modificado, preservando os elementos estruturais e o padrão do edifício.
Uma nova gramática do luxo residencial
Mais do que uma estratégia comercial, o tailor made responde a uma pergunta que vem sendo feita pelo mercado do alto padrão em todo o mundo: o que separa um bom apartamento de um apartamento de luxo? A resposta que se firma é a de que a exclusividade não está mais só no endereço, no acabamento ou no serviço, mas na possibilidade de o comprador projetar o próprio modo de viver.
Se essa lógica se consolidar, o mercado de luxo brasileiro caminhará para uma nova gramática, em que o valor deixa de estar apenas na obra pronta e passa a estar também na experiência de construí-la.